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Morador de rua de cidade de MT retorna para casa no RJ após 10 anos



Bruno Adalberto Martins Pereira tem 33 anos e é conhecido como 'Universo'.
Natural de Nova Iguaçu, ele viveu em Cuiabá e Chapada dos Guimarães.

 
Quando a psicóloga Leslie Puntschart passou pela porta fechada do banheiro de sua casa em Chapada dos Guimarães, município a 65 km de Cuiabá,  na noite do último dia 30, escutou uma melodia que lhe emocionou. Lá de dentro vinha uma voz rouca que cantarolava sob a ducha uma das canções prediletas da funcionária da Assistência Social da cidade: “What a Wonderful World”, eternizada por Louis Armstrong, saía da boca de Bruno Adalberto Martins Pereira, 33 anos, morador de rua que acabara de receber a notícia de que logo retornaria aos cuidados da família em Nova Iguaçu, região metropolitana do Rio de Janeiro, após dez anos vagando como desabrigado.

Querido na cidade de quase 18 mil habitantes, Bruno geralmente recusava banhos oferecidos pelas pessoas nas ruas. Naquela noite, porém, ele se preparava para reencontrar o irmão, com quem acabou embarcando de volta para o Rio de Janeiro, no último dia 2, graças à ajuda de Leslie e de uma rede de pessoas na Assistência Social do município. Desde então Bruno tem retomado a vida ao lado do irmão e dos familiares após uma longa trajetória.

Sumiços

Bruno começou a sofrer transtornos mentais à época em que servia à Marinha (onde diz que chegou a ser cabo) e passou a caminhar sozinho para longe de casa e da família, saindo do estado do Rio de Janeiro e perambulando até cidades como Cuiabá e Chapada, onde ficou conhecido pelo apelido de ‘Universo’ – pelo qual, dez dias após mudar de vida, ainda atende com entusiasmo.

 
Irmão mais velho, Carlos Alexandre Martins Pereira, 37 anos, conta que a família sofreu duas vezes com a ausência de Universo. Tudo começou quando ele passou a apresentar sinais de distúrbios mentais. Na primeira ocasião, sofreu um surto, chegou a quebrar objetos de um ambulatório da Marinha e desapareceu pela região de Angra dos Reis, andando sem pegar carona. Foi localizado dois anos após e sofreu punição na Marinha: ficou 30 dias preso.

Depois de voltar ao trabalho, acabou sumindo de novo, desta vez por dez anos. Antes, porém, falou para a família que não o procurasse porque tinha uma “busca” para fazer, diz Carlos, que tenta recuperar a trajetória do irmão com base nos relatos cheios de lacunas feitos por ele de volta a casa.

Universo caminhou por dois anos sem rumo. Conta que chegou a passar pela Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Em seguida, ficou em Cuiabá, vivendo no campus da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), onde já ficou conhecido pelo apelido de ‘Universo’ – ele conta mais de uma versão sobre como ganhou o apelido. Na UFMT, interagia bastante com os estudantes, com quem às vezes tocava violão. Depois, passou pela região da Salgadeira (na estrada de Cuiabá para Chapada dos Guimarães), onde ficou por cerca de um ano antes de seguir para a cidade de Chapada com uma pessoa que lhe ofereceu carona.

Em Chapada, Universo muitas vezes dormia na área central, perto da Praça Dom Wunibaldo, e chamava atenção pela simpatia. Muitos visitantes da cidade turística chegavam a pedir para tirar fotos com ele nas ruas e lhe ofereciam ajuda, de dinheiro a banhos de ducha – muitas vezes recusados.

“Eu sempre achei que ia encontrar meu irmão um dia. Nunca pensei no pior. Sempre orei muito por ele”, conta Carlos, lembrando da ausência de notícias do irmão ao longo dos anos.

Retorno

Universo passou cerca de cinco anos convivendo com seus lapsos de memória e vivendo pacato na cidade até que, certo dia, machucou o dedão do pé e foi atendido no hospital local. Inusitadamente, durante o atendimento acabou lembrando os nomes dos familiares e outras informações básicas; lembrou-se do trabalho da psicóloga Leslie, que já havia ajudado um amigo em situação de rua com os serviços de Assistência Social. Pediu para falar com ela.


Crítica das políticas invasivas de tratamento a pessoas em situação de rua ou com transtornos mentais, Leslie conta que a abordagem a Universo foi feita aos poucos, respeitando a sensibilidade dele e com o cuidado para que ele não mudasse de idéia quanto a sair das ruas e voltar para a família. Para ela, Universo já falou que não é um homem de rua. Explicou que era um “desabrigado, mas que tinha direito a educação, alimentação, direito de ir e vir, direito à permanência e à ausência”.

Entretanto, com base no nome completo dele e outras informações, a rede de assistência social do município conseguiu localizar a família num bairro de Cabuçu, Nova Iguaçu (RJ), e então iniciou-se um contato telefônico de vinte dias com o irmão Carlos – que vive da venda de frango na brasa numa feira da cidade. Depois de dias de telefonemas, Leslie colocou Universo para falar diretamente com o irmão Carlos. Na conversa emocionada, ele confirmou o desejo de sair das ruas: “Quero ir para casa”, disse. “Ele se encheu de esperança. Mas, inconscientemente, ele já estava procurando a solução para a situação dele”, relata a psicóloga, que registrou o momento da conversa telefônica.

O banho

Daí em diante, bastou o irmão juntar dinheiro para comprar as passagens. No dia 30, Universo estava ansioso e pediu para tomar banho na casa de Leslie. Antes disso, ela o levou a um brechó para comprar roupas, já que as suas até então fediam muito e estavam quase duras de tanta sujeira. O pessoal do brechó fez questão de doar as roupas para ele em vez de vendê-las para Leslie. “É uma celebridade por onde passa”, resume a psicóloga.

Desde o retorno, Universo tem participado ativamente da vida da casa. Na última terça-feira (6), acordou mais cedo que todo mundo na casa, arrumou a cama, lavou a louça e fez o café. Também tem ajudado o irmão na feira quando não fica ouvindo música ou vendo televisão - reportagens e filmes até a hora de ir dormir. Como ainda sofre com os lapsos de memória, o irmão conta que tem tomado cuidado para que ele não desapareça repentinamente de novo.

*Do G1.